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O que pensamos . Artigos . Middle Market . Empresas Familiares
Por: Gustavo Carvalho . 15 de junho de 2018

A disciplina da relação entre família e negócios e a repercussão para o futuro das empresas familiares

O cenário nacional aponta que 75% (setenta e cinco por cento) das Sociedades brasileiras são empresas familiares, estas, responsáveis por 62% (sessenta e dois por cento) do PIB e 75% (setenta e cinco por cento) dos empregos.

Entretanto, o que causa preocupação é a inexistência de definição quanto a sucessão em mais de 80% (oitenta por cento) dessas empresas, muito em razão da elevada concentração dos negócios na figura de seus fundadores.

Essa concentração de informação, por certo, está intimamente relacionada à incapacidade que as famílias têm de debater, internamente, as questões empresariais.

Agente facilitador desse debate são os instrumentos formais que a empresa e as famílias podem adotar, como acordo de sócios e protocolos de família.

Tais instrumentos permitem às próximas gerações o debate sobre as regras que regem a vida da empresa, os princípios que ali são refletidos, a forma que se pretende crescer e perpetuar, os resultados que são colhidos, enfim, documentos que dão aos sócios e às citadas próximas gerações um conhecimento mais abrangente da empresa e dos temas que lhe são relevantes.

Recentemente, o IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa) organização dedicada à promoção da governança corporativa, apresentou um estudo[1] acerca das sociedades familiares e a relação entre a família e os negócios. A pesquisa teve como principal objetivo identificar a importância que um instrumento norteador das relações entre a família e os negócios, em especial o protocolo de família, tem para a longevidade da empresa.

Realizou-se uma amostragem com 62 (sessenta e duas) sociedades familiares, de diversas regiões e segmentos no âmbito do território nacional.

Alguns dados merecem destaque:

1 – 64,5% (sessenta e quatro vírgula cinco por cento) das empresas entrevistadas não possuem um fórum familiar para a discussão dos assuntos empresariais e, das empresas que possuem, apenas 3,2% (três vírgula dois) realizam reuniões periódicas;

2 – 50% (cinquenta por cento) das empresas não possui nenhum documento para disciplinar a relação entre família e negócio;

3 – Das empresas que possuem protocolo familiar, 77,7% (setenta e sete vírgula sete por cento) dessas possuem faturamento acima de R$ 100.000.000,00 (cem milhões de reais), onde 88,9% (oitenta e oito vírgula nove por cento) revelam a existência de documento para disciplinar a relação entre família e negócio.

Do citado estudo, o que podemos ressaltar é o fato de que quanto maior a ausência de envolvimento das gerações no entendimento dos negócios, e que se deixe bastante claro, não necessariamente trabalhando no negócio, menor as possibilidades de internalização dos princípios, valores e missão da empresa.

Não por acaso, das sociedades que discutem abertamente com as gerações os resultados e o caminhar da empresa, em sua maioria são aquelas de maior faturamento; não que tal seja incrementado em razão desse debate, mas sim, que o debate com as gerações é encontrado em empresas que tem maior grau de governança e maturidade, com tendência, ao menos em tese, de sobreviverem na troca de geração, fator indicado pela Harvad Business Review como responsável pela descontinuidade de 70% (setenta por cento) das empresas familiares no mundo.

O estudo demonstra, portanto, a perigosa ausência de regulação de temas importantes no âmbito das empresas familiares, fatores que terão impacto direto em seu futuro.

Mostra, ainda, como a internalização dos princípios e a discussão de temas relacionados ao futuro junto a todos os que podem ser impactados com as decisões, torna legítima e mais facilitada decisões, como venda do negócio, obtenção de investimentos externos, a definição de como e quem poderá integrar as sociedades, como serão escolhidos os futuros líderes, etc. Essa legitimidade por certo pode se tornar o fiel da balança entre a convivência harmônica da família e o sucesso do negócio.

Em nossos últimos anos, atuando diretamente com as empresas familiares, somos a prova da experimentação prática desses princípios, porque, não há ocasião em que não tratemos de debater, ouvir e conversar com todos os envolvidos no processo, em certas ocasiões até mesmo com a terceira geração.

Essa atuação tem nos revelado, ao contrário de apresentar conflitos, o quão, na maioria dos casos, as famílias já tem um consenso internalizado e legitimam as instâncias de decisão de suas empresas, sendo bastante harmônicas, mas ao contrário, tem nos mostrado como a falta de transparência e os pequenos desconfortos, especialmente a ausência de regramento de determinados assuntos, até considerados “simples” como o uso de bens da empresa podem ser o estopim para brigas societárias e rompimentos.

Trazer ao debate assuntos que dão voz aos familiares, às vezes relegados das decisões, buscando um equilíbrio decisório e até mesmo patrimonial, colocando no jogo, regras claras, bem definidas e que todos participaram da construção, ao final é o que reafirma o elo de consanguinidade que os une e, com certeza, traz o potencial de trazer longevidade ao negócio.
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[1] http://conhecimento.ibgc.org.br/Paginas/Publicacao.aspx?PubId=23658
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Co-autor: Lucas de Freitas Pereira