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Artigos . Empresas Familiares
Por: Wallison Jackson de Magalhães . 11 de julho de 2019

A importância da qualificação dos herdeiros para sua legitimação

 Os privilégios e as oportunidades de um herdeiro não devem privá-lo da sensibilidade dos negócios e das contingências da vida, sendo necessário propiciar que o herdeiro trace a sua própria história

Empresários detentores de sólido patrimônio ou de empreendimentos promissores são provocados sobre a importância e a necessidade de planejar sua sucessão como uma maneira de contribuir para a perenidade dos negócios e da harmonia familiar. Para muitos, os conceitos envoltos em um planejamento sucessório parecem não ser novidade. Contudo, a trivialidade do tema não corresponde à maturidade das discussões e à adequada compreensão dos interesses e dos valores envoltos na “troca de bastão”.

O meio empresarial brasileiro é repleto de empresas familiares onde a pessoalidade das relações societárias e da gestão são destacadas de tal modo que o negócio é envolvido pela imagem dos fundadores, não se compreendendo o negócio sem eles. E esta identidade é invariavelmente um motivo de grande orgulho de muitos empresários, que olvidam o risco do perecimento de todo o patrimônio erguido se não houver a preparação de seus herdeiros e a criação de um processo de sucessão.

É prudente ter em vista que o fenômeno da sucessão põe à prova a confiabilidade, a força e a higidez de um negócio, pois comumente implica na ascensão de herdeiros à posição de sócios e, muitas vezes, até à posição de gestores da Sociedade, circunstância muitas vezes indesejada ou receada, visto que os herdeiros nem sempre desfrutam do mesmo sentimento de confiança depositado pelos outros sócios, pelos colaboradores e até mesmo pelos clientes na imagem e na experiência do sócio sucedido. Assim, não bastasse a necessidade de testar suas habilidades de gestão, o herdeiro é confrontado à angustiante tarefa de se legitimar em sua posição perante diversos públicos.

Planejar a sucessão empresarial envolve um processo de educação que perpassa pela:

– diferenciação entre o capital e o trabalho, ou seja, a condição de sócio e, por conseguinte, o direito de receber lucros, se e quando houver, e a remuneração devida em razão do trabalho desempenhado na Sociedade;

– compreensão das burocracias, dos fundamentos de gestão, do modelo de negócio e do mercado em que se está inserido;

– percepção dos custos e das responsabilidades da vida empresária.

Trata-se de um processo gradual muitas vezes iniciado pela apresentação do patrimônio e dos negócios; pela participação no dia a dia da Sociedade, que transborda para a criação de hábitos como a separação entre as relações familiares e profissionais, tanto quanto entre as despesas pessoais e as da Sociedade.

Essa aculturação é necessária para que os herdeiros sejam expostos às agruras do negócio, despertando e aperfeiçoando habilidades e competências úteis para a transposição de dificuldades e a ruptura com posições conformistas, uma vez que o cenário empresarial atual, não bastasse a volatilidade da economia, impõe uma constante reinvenção dos profissionais e dos negócios.

O processo de formação de sucessores não tem como finalidade específica a profissionalização da gestão ou a qualificação dos herdeiros para determinadas posições. Esses são os meios para se alcançar objetivos mais amplos, quais sejam a perenidade dos negócios e a possibilidade de que os herdeiros criem independência e possam gerir ou potencializar o patrimônio herdado, criando seu próprio legado de sucesso.

Em suma, é necessário assumir que os privilégios e as oportunidades de um herdeiro não devem privá-lo da sensibilidade dos negócios e das contingências da vida, sendo necessário propiciar que o herdeiro trace a sua própria história legitimando-se por meio do seu trabalho e erguendo a sua própria identidade, seja para a segurança e a otimização de seu patrimônio, seja para a garantia de sua própria realização pessoal.