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Foto do artigo sobre "erro médico"

O que pensamos . Artigos . Direito da Saúde
Por: Ronaldo Behrens . 9 de julho de 2018

Usar “erro médico” não é Superinteressante!

Em recente reportagem de capa da Revista Superinteressante, o autor usou e abusou do termo “erro médico”. Infelizmente, mesmo não me parecendo ser esta a sua intenção original, contribuiu largamente para aumentar a ignorância de seus leitores e jogar uma carga indevida de preconceito contra os profissionais da Medicina.

Quais as contradições do autor? Porque admitiu ser superficial em sua abordagem? Até quando a Sociedade será covarde e oportunista ao tratar de temas complexos? É o que pretendo abordar neste paper.

Não é de hoje que a classe médica é atacada por grupos ou mesmo pelo Governo. Lembro-me, ainda nos idos de 1989, quando desisti da Medicina e me enveredei pelo Direito, que uma das minhas principais motivações foi uma propaganda que vi que dizia: “Cuidado: médico mata!”.

Mais recentemente, o Governo federal tentou jogar na conta dos médicos sua incompetência e falta de vontade política em financiar a saúde pública ao propor o programa “Mais Médicos”.

De forma não intencional, a reportagem da Superinteressante faz novo ataque a estes profissionais, ao utilizar de forma pouco inteligente o termo “erro médico” como sinônimo de “medical error” que alguns trabalhos norteamericanos utilizam para tratar de problemas na cadeia assistencial; exatamente o foco da Organização Mundial de Saúde ao incentivar a instituição de programas de segurança do paciente. Já tive a oportunidade de escrever sobre isso no ano passado (Confira aqui).

Já no começo da reportagem vê-se a contradição do autor ao fazer uma comparação com a indústria aeronáutica. Se tem algo que é sabido por todos, é que a evolução da segurança nesta indústria veio exatamente quando a mesma percebeu que, para esse propósito, mais importante do que atribuir culpas era entender os motivos determinantes que levaram ao evento indesejado. E as investigações mostraram que um acidente aeronáutico raramente é fruto de “uma única pessoa que erra”.

Esta indústria acredita que o denominado “erro” não é causa de um acidente; mas sim que o evento indesejado é consequência de falhas sistêmicas. Somente a partir dessa premissa é que eles conseguiram aumentar a segurança.

Assim, culpar alguém é a forma mais fácil de não se dar ao trabalho de analisar a fundo os diversos (repita-se: diversos) motivos que levaram ao evento indesejado e gerar conhecimento e aprendizado a ser compartilhado a partir dos referidos motivos determinantes identificados.

Aplicando-se na indústria da saúde, é simplesmente ignorante e superficial dizer ou tentar induzir ao pensamento de que há “erros médicos”, procurando dizer que somente um profissional é o responsável pelo desenlace indesejado.

Chegar a essas conclusões não é algo complicado e uma simples conversa com qualquer pessoa séria que trabalha com qualidade e com segurança do paciente poderia alertar o autor sobre o tamanho da bobagem que ele poderia fazer ao procurar culpados para um caso que é sabidamente sistêmico.

Além do mais, se quisesse efetivamente compreender os reais problemas que podem determinar eventos adversos no setor da saúde, aí vai uma lista simples: péssimo financiamento da saúde pública no Brasil; valores pagos pelos procedimentos, inclusive honorários médicos, obrigando-os a uma carga absolutamente excessiva de trabalho; deficiência na fiscalização dos serviços públicos que deveriam ser modelos (em termos genéricos) para os privados; alteração profunda na relação com o paciente (seja dos profissionais de saúde, seja das instituições), mudando o modelo paternalista ao trazer o paciente para o processo decisório da assistência prestada (sobre este último, leia aqui). Isso dentre vários outros que poderia citar.

Evidentemente, há problemas identificados a própria reportagem com relação à prestação específica dos profissionais da Medicina e é fato que os maus profissionais, os desidiosos, devem arcar com os danos que causam ao particular e mesmo à Sociedade.

Contudo, diferentemente do que sugere o autor, os Conselhos de Medicina exercem um papel bastante concreto nas punições. Suspeito até que, proporcionalmente, seja o órgão fiscalizador de classe que mais puna seus inscritos.

Não é complexa a pesquisa que prova que o Conselho de Medicina sempre brigou contra a profusão das faculdades de Medicina no Brasil, enquanto toda a Sociedade achava bacana e aplaudia o Governo federal (pós 2013) que permitiu indiscriminadamente a abertura das mesmas (geralmente, quem são os donos dessas faculdades mesmo?), sem qualquer critério de qualidade. Os médicos foram chamados de corporativistas, mais uma vez.

Em que pese a boa qualidade da Revista em foco e preservando-se, ressalte-se, a idoneidade da pessoa do autor (jamais me permitiria questionar a pessoa; mas somente as ideias da reportagem), não consigo esconder minha decepção com o que li.

E, principalmente, minha desilusão com uma Sociedade que, em sua maioria, prefere apontar dedos a fazer o duro e silencioso trabalho que é puxa para si a responsabilidade da evolução de nosso País.